quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A moça do walkman

Ela caminha sem se interessar em chegar.

Seus olhos nada procuram.

Não há aquela normal intenção de observar.

As imagens estão lá, passam por ela como se quisessem chamar sua atenção, mas ela já não estava lá há tempo.

Ela escuta a música que toca em seu walkman, mas não procura identificar o que diz a letra.

Ela está distante daqui.

Pergunto: onde e o que a fez buscar aquele lugar tão seguro?

E enquanto a fotografo em minha memória do outro lado da rua acontece de um pássaro cair sem vida à sua frente. Surpreendo-me ao vê-la mudar seu olhar para o pequeno e frágil animal falecido ao chão. Ela o olha, o percebe e daqui eu sinto que foi como se tivesse se desprendido um pedaço do seu espírito.

Os veículos trafegam como se quisessem chamar sua atenção. Ela que não parece ter a intenção de atravessar, mas que encontra-se de pé em frente à rua, estando ali como em qualquer outro lugar; e como em lugar nenhum.

Eu, de cá, do outro lado, enquanto a assisto me passa uma outra questão: o que será que ela está pensando, ou ainda mais profundamente, qual o sentimento dela agora?

Seu olhar continua fixo naquele animal. Será que ela está a procurar um resto de alma e será que há ainda ali algo que anseie em viver? O que nada tem a ver com a doce e patente esperança, mas tão simplesmente com o processo natural e fatal do curso da vida, como o do rio. Existe ao menos a gota da qual valha a pena tragar?

Ela parece estar presa àquela vida perdida daquele outro ser, como à dela própria.

Seu walkman parece ainda tocar algum som. Qual será a trilha que compõe aquele momento?

Não importa, à ela não importa realmente.

Talvez a música que toca ali seja a única coisa que represente o que está do lado de fora e pode acessar aquele espaço vazio. Seus ouvidos são, então, as portas que dão ao imenso salão de baile sem quem ali dance ao repertório que a moça escolheu.

De repente, ela tira de sua mochila um lenço florido e, misteriosamente, pega o pássaro e o enrola naquele pedaço de pano. Estranhamente guarda-o consigo. Nesse momento todos os carros param e ela enfim atravessa a rua, passa por mim e seu olhar se direciona ao meu e quando isso acontece eu sinto em mim uma profunda compreensão daquela moça do walkman.

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